Eu sempre digo que a vida é uma corrida injusta. Você coloca duas pessoas para correr o mesmo trajeto. Uma está descalça, a outra está de tênis. O percurso é o mesmo. O sol é o mesmo. O asfalto é o mesmo. Mas a dor não é a mesma. É claro que quem está de tênis tem mais chance de chegar primeiro. O asfalto está quente. Cada passo de quem está descalço queima, machuca, abre ferida. Não é falta de esforço. Não é falta de vontade. É falta de condição.
E essa é a grande injustiça que muitas vezes a gente finge não enxergar. Nós crescemos ouvindo que basta querer. Que é só correr mais rápido. Que quem não chegou é porque não se esforçou o suficiente. Mas quem já andou no asfalto quente sabe: esforço não anula a dor.
Agora eu digo mais: existem exceções. Existem pessoas que, mesmo descalças, conseguem chegar. Elas chegam porque o pé caleja, a pele engrossa, cria uma casca dura de tanto sofrer. Elas não vencem porque foi fácil. Elas vencem porque resistiram. E essas histórias são inspiradoras. São exemplos de superação. São motivo de orgulho. Mas política pública não pode ser construída olhando para a exceção. Governar não é contar com o heroísmo individual. Governar é garantir condição coletiva.
O papel do poder público não é acelerar a corrida, é garantir que ninguém precise se machucar para ter oportunidade. Não se trata de dar vantagem. Se trata de dar ponto de partida justo. Porque superação é admirável, mas justiça é indispensável.
Quando falamos de educação pública de qualidade, estamos falando de colocar tênis nos pés de quem sempre correu descalço. Quando falamos de mobilidade urbana eficiente, estamos falando de reduzir o peso que alguns carregam desde a largada. Quando falamos de políticas sociais responsáveis, estamos falando de garantir dignidade antes da disputa. Cuidar das pessoas é isso. É entender que nem todo mundo começou do mesmo lugar.
E eu acredito numa cidade que não dependa da dor para produzir vencedores. Eu acredito numa cidade que transforme exceção em regra. Porque uma sociedade justa não é aquela que aplaude quem resistiu ao sofrimento. É aquela que reduz o sofrimento para que mais pessoas possam florescer. A vida pode até ser uma corrida. Mas cabe a nós decidir se ela continuará sendo injusta.
Thiago Almeida
Presidente da Câmara Municipal de Nova Lima




