O que se viu no Senado não foi apenas uma derrota política. Foi um ritual. Um auto de fé às avessas, conduzido não pela busca da verdade, mas pela liturgia cínica do poder miúdo. A rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal — um evangélico, um jurista técnico, um quadro orgânico do Estado — escancarou um Parlamento que já não disfarça sua vocação para o sacrifício seletivo e a traição calculada.

Há derrotas que se explicam por números. Esta se explica por símbolos. No altar dessa sessão, Jorge Messias foi menos um indicado e mais um corpo exposto, oferecido à sanha do baixo clero, que agiu como um colégio de Judas, trocando princípios por moedas, instituições por emendas, República por conveniência. A votação foi o beijo frio da traição: pública, ensaiada e cínica.

O nome não poderia ser mais irônico — Messias. E a ironia se converteu em tragédia política. O Senado, que deveria ser casa de ponderação e grandeza, encenou uma crucificação laica. Não por crime, não por incapacidade, mas por ousadia: a ousadia de representar uma tentativa de purificação mínima de um STF frequentemente acusado — com ou sem razão — de distanciamento social e institucional. A resposta foi brutal: rejeição, humilhação, escárnio.

No centro da cena, Davi Alcolumbre desempenhou o papel de um Pilatos da nova era. Mas não o Pilatos covarde que lava as mãos. Este foi além: conspirou, articulou, conduziu o processo da derrocada com método e frieza. Não houve neutralidade, houve direção. Não houve isenção, houve cálculo. A água que correu não limpou consciência alguma.

O episódio remete a um passado sombrio. Não se registrava afronta semelhante a um indicado há mais de 130 anos, desde os tempos de Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro, quando o autoritarismo se impunha sem mediações e o Congresso dobrava a espinha diante da força bruta. Hoje, a força não é o sabre, mas o orçamento secreto — essa ração obscena que alimentou apetites e deu musculatura a um Parlamento que se acostumou a governar sem voto e sem responsabilidade.

E aqui está o ponto central: ao crucificar Messias, o Senado imaginou sair vitorioso. Enganou-se. Não há redenção para quem transforma a República em balcão. O enviado de Lula sai ferido, mas íntegro. Os algozes, saciados por ora, seguem condenados a um futuro próximo de escassez — sem o alimento das emendas secretas, sem a energia fácil do dinheiro opaco, expostos ao juízo popular que, cedo ou tarde, cobra a conta.

Para que tudo isso? Para afirmar poder? Para humilhar o Executivo? Para sinalizar força a uma plateia ressentida? Talvez. Mas, sobretudo, para revelar o que muitos insistiam em negar: uma política em estado de degradação moral avançada, onde a traição virou método e a humilhação, instrumento.

Messias caiu, mas não foi derrotado. A derrota verdadeira é do Senado — pequeno, conspiratório, apequenado por seus próprios vícios. A história, essa velha testemunha impiedosa, saberá distinguir quem foi crucificado e quem, afinal, pregou os pregos.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This will close in 0 seconds